Masonic and Macau Themes



A 1ª República, Macau e os Maçons (Arnaldo M.A. Gonçalves, Revista Cultura de Macau)

A afirmação da elite republicana em Macau no primeiro quartel do Século XX está associada a dois fenómenos aparentemente independentes mas que têm uma ligação inconfundível. Por um lado, a emergência de associações políticas locais alinhadas com os principais partidos republicanos portugueses; por outro lado, o peso social da Maçonaria como estrutura de fixação de lealdades e solidariedades dentro da comunidade lusa, formada por naturais de Macau e expatriados. Os dois elementos, por vezes sobrepostos, constituem um contrapeso da influência secular da Igreja Católica e das suas obras missionárias numa sociedade naturalmente conservadora e paroquial.

Se a distância da então colónia relativamente à Metrópole subordinava os laços de lealdade política a juízos de oportunidade [ou mesmo de calculismo político] a prática política fazia-se de acordo com a agenda política local, as eleições periódicas para o Leal Senado, os interesses dos lobbies de influência mais do que ao cumprimento de determinações de Lisboa. A teia de ligações pessoais propiciada pela filiação maçónica secreta permitiu a intelectuais, figuras gradas da sociedade macaense e expatriados concertar lealdades e articular estratégias.

Entrecruzando-se com estas interdependências jornais como “A Verdade”, “Vida Nova”, “O Combate”, “A Pátria”, “O Oriente Português”, “A Colónia” alinhavam-se no debate das principais questões políticas locais e das clivagens entre os partidários da República e da Monarquia, designadamente à volta da implementação dos decretos da 1ª República que determinavam a expulsão dos jesuítas e de todas as ordens religiosas de território português, a separação do Estado da Igreja e a nacionalização dos bens desta.

A Loja Camões

Papel importante neste jogo político foi desempenhado pela Loja Camões, espécie de célula organizacional que estava subordinada ao Grande Oriente Lusitano, a principal Obediência Maçónica portuguesa ao longo de todo o século XIX e três primeiros quartéis do século XX. Impropriamente fala-se numa Loja quando foram exactamente duas. Uma que tem existência entre 1909 e 1915 e outra que “ergue colunas” em 1915 e subsiste até 1930.

A primeira Loja Camões surge de um Triângulo formado em 1906 e ligado à Loja Pró Veritate de Coimbra sendo crível que tenha sido formada por militares e funcionários públicos colocados em serviço na colónia. Esta Loja teve o número 309 no registo no Grande Oriente Lusitano e “abateu colunas” em 1914, sendo dissolvida por Decreto do Grão-Mestre de 2 de Março de 1915. As razões para esta situação não se conhecem. É possível que tenham surgido diferenças de opinião irreconciliáveis entre os “Irmãos” que levaram a esse desfecho. A Loja deixava de existir numa data e reerguia-se sem os elementos indesejados algum tempo depois.

Em boa verdade, o surgimento da Maçonaria em Macau e na China é muito anterior a 1907. Segundo vários historiadores maçónicos data de 1759, um século e meio antes, quando um navio de nome “Prince Carl” pertencente à Companhia Sueca das Índias Ocidentais aportou a Macau trazendo a bordo maçons, com carta patente para desenvolverem a sua actividade nos portos a que acostassem. Estes maçons e outros que terão sido entretanto iniciados terão constituído uma Loja no território integrando figuras relevantes da aristocracia, da burguesia mercantil e das profissões liberais. Terá sido uma Loja independente ou subordinada a algum Oriente? Não se sabe mas é de presumir que a Loja funcionasse em português, que era a língua franca usada nesta parte do mundo, ao longo de todo o século XVIII e grande parte do século XIX, por mercadores, militares e embarcadiços. É plausível que a partir deste núcleo, a Maçonaria se tenha espraiado por toda a China e consolidado nos entrepostos comerciais de Cantão e Xangai, antes assim dos confrontos da Guerra do Ópio e da criação de Hong Kong.

Como lugar de reunião das principais figuras intelectuais da época presume-se que tenham pertencido ao núcleo maçónico de Macau e depois à Loja personalidades como António Alexandrino de Melo [o Barão do Cercal], Adrião Acácio Silveira Pinto, Francisco Hermenegildo, Telo Azevedo Gomes ou José Vicente Jorge Silva, secretário da Embaixada portuguesa em Pequim.

De Alexandrino de Melo não restam grandes dúvidas quanto à sua qualidade de membro da Ordem. Segundo Barão do Cercal, viveu entre 1837 e 1885, sendo formado em engenharia e projectista de vários edifícios públicos de Macau como o Palácio do Governo, o Palácio de Santa Sancha, o Hospital de São Januário [depois demolido], a Capela do Cemitério de S. Miguel, o Quartel dos Mouros e o Grémio Militar [hoje, Clube Militar]. Alguns destes edifícios conservam inequívocos traços simbólicos maçónicos e esotéricos, não passando despercebida a inspiração templária do seu Brasão de Armas.

De Hermenegildo Fernandes, proprietário da Tipografia Mercantil e intérprete no Tribunal de Hong Kong, é conhecida a sua ligação próxima a Sun Yat-Sen, o primeiro Presidente da República chinesa, a quem socorreu mais do que uma vez nas fugas do revolucionário chinês para Macau. Investigadores atribuem-lhe a qualidade de maçom, o que estará de acordo com a facilidade com que se movia nos círculos de poder de então.

 

(Continua)

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